Uma MAV q não me impede de viver!!!

LUCIANA KELE DORINI

AVENIDA IGUACU
MANGUEIRINHA
85540-000
4632431354
ludorini@hotmail.com

Notícias

E se você descobrisse que só tem mais seis meses de vida???  O que faria???   Pediria...
Você acredita que é possível ser feliz seguindo apenas 3 passos? Eu também duvidava, mas hoje...

E quando de repente PAI...

12/08/2017 14:57
De repente a notícia, a surpresa: a mais esperada, ou a menos imaginada... a mais feliz, ou a mais...

Capítulo 8

Pra quem gosta de aproveitar o bom da vida... pra quem já estava cansada de rotina... nessa fase de muitas cores e novos sabores, e no entusiasmo por descobrir que o meu coração ainda sabia bater mais forte... tendo certeza que nada no mundo é pra sempre, resolvi cuidar mais de mim, fazer coisas que eu gosto e que me fazem sentir mais viva e mais livre... 
 
Nesse tempo eu estava muito mais segura, muito mais liberta, muito mais leve e assim queria aproveitar tudo que eu pudesse, e por isso quis, respeitando minhas limitiações é claro, voltar a jogar vôlei... 
 
Desde os dez anos de idade que sou apaixonada pelas quadras... lembro, nitidamente, que quando estava na quinta série, hoje seria sexto ano, fomos informados que haveria jogos no nosso colégio, chamados interséries... Éramos as menores do colégio, nunca havíamos jogado nada, mas a gente queria participar... a gente queria jogar vôlei, a gente queria compertir... 
 
Então fomos conversar com nossa professora de Educação Física, e ela não gostou nada da ideia, ela não nos achava capazes de aprender nada em tão pouco tempo, e achava que iríamos passar vergonha... soubemos então que ela não iria nos treinar... :(
 
Nunca gostei de não como respostas e minhas amigas também não... foi então que procuramos outra professora para nos treinar porque sempre existe alguém que aposta em nossos sonhos... Ela no ouviu, e sabia que nós não conseguiríamos ganhar da oitava série, mas ela sabia também que se não fôssemos incentivadas por alguém, nós poderíamos desistir, e ela não quis que desistíssimos, pelo contrário, ela quis que nos sentíssemos capazes de lutar por tudo o que tivéssemos vontade... 
 
Então procuramos o diretor da escola, na época meu tio, que disponibilizou a estrutura do colégio para que treinássemos fora de hora.. nossa treinadora  terminava suas aulas e não saía do colégio, continuava lá para nos ensinar o básico do voleibol... para nos ensinar dar os primeiros passos no esporte que nós escolhemos... para nos motivar a sermos cada dia melhor.. 
 
Lembro que treinávamos toque com bolas de basquete, imagina eu pequenininha, mal conseguia com o peso da bola de basquete, mas estava lá firme e forte... haha
 
Ela às vezes até levava suas companheiras de time para nos ajudar treinar... :)
 
Naqueles jogos ficamos em terceiro lugar e a disputa era entre quatro times... não que tivéssemos vencido alguém, mas tivemos sorte... muita sorte... hahaha 
 
Tenho foto lá no lugar mais baixo do pódium com as medalhas na mão, mais feliz que nunca... Desses meses sempre vou lembrar de como é fácil fazer feliz uma criança, e como é fácil desapontá-las também... 
 
Enfim, esse foi meu primeiro contato com o vôlei e depois disso nunca mais parei de jogar, não que fosse boa jogadora, mas sempre fui esforçada e dona da bola também... hahahaha
 
Brincadeirinha, eu tinha minha bola e minha rede sim, que ganhei de presente de aniversário do meu irmão logo que me apaixonei pelo esporte... mas acho que eu também contribuía para as equipes, porque sempre tive times onde jogar... 
 
Ainda no ensino fundamental fomos participar de uns jogos escolares regionais, nessa época já éramos treinadas por um professor contratado para isso, expert no assunto... e numa hora muito importante de um dos nossos  jogos quando eu ia sacar (e eu sacava por baixo), ele me tirou para colocar uma colega que sacava por cima e muito forte... Nossa,  eu fiquei muito chateada, era um momento decisivo e até então eu tinha ido muito bem na partida, então sentei ao lado dele e disse: "Ela vai errar"... affffff, que egoísmo o meu, mas não posso mentir, era o que eu queria no momento... e ela se preparou e sacou forte, muito forte mesmo e no meio da rede...hahaha
 
Sei que é feio sentir isso, crianças não pensem como a tia Lu, mas naquele momento eu fiquei super feliz e voltei à quadra na mesma hora... hahaha
 
No ensino médio eu jogava quase todas as noites, em times mistos, com garotos fortes, mas eu não tinha medo de nada, eu gostava mesmo era da adrenalina...  nessa época fomos para os jogos escolares regionais mais uma vez, porém algumas atletas que deveriam ir não puderam, e então acabamos sendo desclassificadas por falta de jogadoras... foi muito triste nem poder entrar em quadra, mas estávamos lá participando da festa... confraternizando... brincando...comendo muito chocolate...  beijando na boca e sendo feliz... hahaha
 
Na época da faculdade eu continuei jogando, pelo nosso curso em poucas oportunidades, e por empresas de Mangueirinha nos JICOMANs, os jogos da indústria e comércio do meu município... 
 
Num ano formamos um time do escritório do meu pai, e meu irmão nos treinava... Ele era boleiro, no futebol dava show, mas sempre foi bem em todos os esportes de equipe, inclusive no vôlei, onde era levantador... A gente emprestava quadras, treinava em todos os horários possíveis, fazíamos de tudo para jogar e éramos muito felizes assim... 
 
Quando não morava mais em Mangueirinha, eu fazia mais de 100km pra jogar... jogava e voltava pra casa correndo, mas super valia a pena... ganhando ou perdendo, era sempre uma vitória... haha
 
Porém depois da minha primeira hemorragia, e de tantas outras que aconteceram, eu comecei a ficar com medo de jogar... aí só brincava com algumas amigas parceiras que gostavam da quadra pra se divertir e não para competir... com algumas amigas que se divertiam só pelo fato de existir... :)
 
Aqueles jogos eram maravilhosos, e depois deles ainda saíamos, de joelheira e tudo para tomar uma cervejinha e comemorar... que saudade daquele tempo... tempo que não volta mais... 
 
Aos poucos e pela reincidência das cirurgias, eu parei de vez... não chegava nem perto de uma bola... só entrava nos ginásios para torcer por meus sobrinhos e mesmo assim com medo de ser surpresa por uma bolada... 
 
Só fui entrar numa quadra de novo quando morava em Saudade do Iguaçu e o pessoal da prefeitura, meus colegas de trabalho resolveram jogar vôlei, homens contra mulheres e me convidaram para ir também... eu fui, e jogava de levantadora no time dos homens, quase que uma peça decorativa... hahaha
 
Engraçado como uma única palavra pode nos remeter a tantas lembranças... a tantos fatos... 
 
Uma música, um perfume, um gosto... um gesto, uma paisagem, uma flor, uma comida, uma palavra...  Estranho mas ao mesmo tempo maravilho como coisas tão simples têm o poder de nos fazer mergulhar no mais íntimo da alma e nadar nas memórias mais bem guardadas...memórias capazes de nos fazer sentir de novo... chorar de novo... querer de novo... memórias capazes de nos fazer viajar por todas as fases da vida, relembrando amizades... relembrando vitórias... relembrando sonhos... relembrando derrotas... relembrando como é tão bom valer-se dos bons momentos... :)
 
Então foi depois de muitos e muitos e muitos anos bem longe de tudo isso, só participando do esporte do lado de fora da quadra e dentro da minha mente, nessa época, com a saúde mais estável e super motivada depois do casinho com o mineiro, e também depois de conhecer outras cores e sabores, eu resolvi voltar... Porém sou uma paciente super cautelosa, foi então que pedi autorização pro meu médico para jogar um voleizinho inocente, e ele concedeu... :)
 
Gente, eu juro, eu imaginava que seria, realmente, inocente... hahahaha
 
Soube que uma turminha animada jogava todas as segundas e quartas, conversei com um amigo que participava,  e tive permissão pra entrar nessa festa também... Foi então que numa quarta-feira, noite que não tinha aulas, que a profe aqui ao invés de colocar calça comportada e camisa, colocou shorts e blusinha... trocou o sapatinho pelo tênis... o óculos pela lente... e partiu para o ginásio... 
 
Eu não sabia mais como pegar na bola... eu não tinha mais noção de nada, fui meio que para dar uma olhadinha e logo me colocaram num time... pensa na emoção que eu senti em, simplesmente, estar numa quadra de novo... foi incrível... eu jamais me imaginaria naquela situação de novo depois de tantos acontecimentos tristes na minha vida... 
 
Mas como o mundo dá voltas e voltas, numa dessas voltas lá estava eu mais uma vez... um tanto quanto tímida, e sentindo muita vergonha... vergonha pelas besteiras que eu poderia fazer, pois como diz uma amiga, depois dos 30 a cabeça vai mas o corpo não acompanha, ou seja a gente pensa mas não realiza porque o cérebro está muito mais rápido que as pernas... hahaha
 
Tinha medo também,  muito medo de levar uma bolada pela falta de reflexo, por tanto tempo sem jogar, tinha medo de levar uma bolada no rosto e sangrar... de acordar do sonho dentro do pesadelo... :(
 
Porém eu precisava vencer a timidez, a vergonha e o medo...  E logo no primeiro dia, eu levei uma bolada... sabe quando o cara sobe pra bater, e bate cheio de vontade... (se eu estivesse na torcida teria aplaudido), mas detalhe, eu estava no time adversário bem na direção da bola...  e levei essa bomba entre a coxa direita e os meus braços preparados para defender... doeu, doeu bastante... mas ao mesmo tempo que doeu o corpo, me aliviou a alma, porque nesse momento eu vi que ainda sabia me proteger, que não levaria uma bolada no rosto tão fácil assim... 
 
Comecei  ir todas as quartas e cada dia mais feliz... não jogava nada, estava totalmente sem tempo de bola, sem forma nenhuma, mas me divertia, imensamente, e a cada volta pra casa estava vermelha, suada e realizada, me sentindo inteira... me sentindo viva de verdade... Ai, como é bom fazer o que a gente gosta... como é bom conviver com pessoas de bem com a vida... como é bom se sentir acolhida...
 
Acolhida por velhas companheiras de quadra... por antigos conhecidos... pelos filhos das minhas colegas... por crianças que corriam e faziam uma super torcida quando jogávamos há 15 anos atrás, e que agora eram jovens doidos pelo volei como eu... Por adolescentes, jovens e adultos... homens e mulheres... pessoas que ali, sem se importar com nenhuma diferença, formavam uma grande família... uma família sem preconceito, com algumas discussões, e com muito respeito, carinho e alegria... Pessoas que preocupavam-se umas com as outras... jogadores que desejavam mais o bem estar que as vitórias... :) 
 
Eu continuei jogando, me sentia bem demais lá... em alguns momentos, quando o saque era muito forte do outro lado, os meninos faziam meio que uma barreira de proteção ao meu redor... eles se deslocavam, sutilmente,  de forma que a bola nunca fosse minha...  hahaha
 
Acho que em outros tempos, eu ficaria, extremamente, triste... desmerecida... menosprezada até... Mas nesse momento em que eu conhecia muito bem minhas limitações, e entendia que tenho uma diferença e que preciso de alguns pequenos cuidados por isso... eu fiquei feliz, feliz demais... porque pensando com toda a serenidade que me acompanhava desde os últimos anos, eu compreendia que eles não pensavam que eu era incapaz de pegar um saque forte, o que eles pensavam é que eu poderia me machucar, e eles não queriam isso... 
 
Eles só queriam cuidar de mim... e como é bom receber esse carinho... nunca falei disso com eles, eles não queriam que eu soubesse da estratégia... 
 
Mas mesmo quando estava em outros times, sem barreira de proteção... e os saques fortes vinham pro meu lado, mesmo que às vezes não conseguisse pegar, nunca me machuram também... Dia após dia fui perdendo o medo e a vergonha... aprendi a ter mais coragem e a tentar e não me cobrar por errar... 
 
Pouco tempo depois de iniciar no volei eu já estava muito mais motivada pra tudo... eu sentia meu corpo doer, mas também o via mais "firme"... eu não tinha preguiça de sair pra jogar... eu não tinha preguiça nem de colocar as lentes, que só usava para eventos super/hiper/mega especiais...  
 
Foi então que anunciaram que em breve teriam início os jogos da cidade, que os times de volei seriam mistos, e que daquela grande família, precisariam surgir várias equipes menores para dar disputa... Eu falei que não participaria, pois eu sabia muito bem das minhas limitações, e também não queria atrapalhar nenhum time, é lógico.. hahahaha
 
Mas companheiro que é companheiro não deixa ninguém pra traz, isso quer dizer que fui incluída num time mesmo assim... e não nego, tive muita, mas muita, muita, muita vontade de jogar, porém sabendo que não seria sensato, acabei sendo uma espécie de técnica.. uma perfeita "Bernardinha", pelo menos no nervosismo... hahaha
 
Eu não sou boa nisso, mas adorei participar... mesmo sentadinha no banco, ou andando em volta da quadra... mesmo querendo ajudar sem poder... mesmo lembrando das inúmeras vezes que eu estava do outro lado, eu me senti super feliz em poder participar... em poder sentir mais uma vez toda aquela adrenalina deliciosa... 
 
Ouvir a torcida gritando... discutir um pouquinho com o juíz... desesperar com um ponto perdido... vibrar com um ponto feito... gritar até ficar sem voz com uma vitória perfeita, ou com uma derrota suada e super disputada...  
 
Tudo isso me fez voltar no tempo, tudo isso coroou minha nova fase... minha fase de muita libertação...
 
Nossa equipe ficou em terceiro lugar, mas independente de colocação, todos saímos vitoriosos... todos fomos campeões de motivação, força, garra, energia, alegria... todo fomos priveligiados em desfrutar de momentos saudáveis e revigorantes... e me senti maravilhosa recebendo, mais uma vez, uma medalha de terceiro lugar... :)
 
Eu estava jogando, eu era técnica, eu continuava com as visitas à minha psicóloga... 
Eu permanecia com minhas aulas, com meus alunos, com minhas orientações de estágio... 
Eu estava muito mais viva, e muito mais disposta a VIVER...  e viver querendo conquistar o mundo... ou então aproveitar o máximo do meu mundo... :)
 
Do meu mundo de sonhos e realizações... medos enormes e coragens absurdas... momentos de desalento para dias de alegria... 
Do meu mundo que eu ganhei de presente, e resolvi cortar o laço e abrir o pacote disposta a tudo... 
E foi assim que segui vivendo... me entregando à felicidade... ;)