Uma MAV q não me impede de viver!!!

LUCIANA KELE DORINI

AVENIDA IGUACU
MANGUEIRINHA
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Notícias

E se você descobrisse que só tem mais seis meses de vida???  O que faria???   Pediria...
Você acredita que é possível ser feliz seguindo apenas 3 passos? Eu também duvidava, mas hoje...

E quando de repente PAI...

12/08/2017 14:57
De repente a notícia, a surpresa: a mais esperada, ou a menos imaginada... a mais feliz, ou a mais...

Capítulo 22

Sair do hospital... voltar para casa e ter todos os problemas resolvidos...

Às vezes não é bem assim... e dessa vez não foi...

Além do costumeiro inchaço pós embolização... dormir pouco... algumas dores de cabeça muito estranhas e uma dor abdominal sem explicação... depois desse quarto procedimento tive mais um problema...

Lembram daquelas crises nervosas que eu havia falado???

Pois é... elas chegaram com tudo... mas com tudo mesmo...

Gente, essas crises me derrubaram... E claro que eu entendia o porquê... todo o processo cirúrgico e todo o stress na UTI não seriam absorvidos, automaticamente, pelo meu organismo... algo precisaria acontecer... :(

Acho que na terceira crise, e isso em menos de dez dias, eu estava extremamente preocupada, preocupada mesmo, desesperada seria a palavra certa... eu pensava que aquilo podia ser uma consequência dos embolizantes... um sinal que o procedimento não deu certo, talvez algo que estaria afetando o meu sistema nervoso...

Nossa, quanto sono perdi por conta disso...quanto chorei por não saber o que acontecia comigo...  até que resolvi pedir uma orientação ao meu oftalmo, pois nessas crises a minha visão era a mais prejudicada...

Eu sempre tive muita sorte com meus médicos, e com meu oftalmo não seria diferente... além de um profissional incrível, o Eduardo é um ser humano maravilhoso.... Sempre muito atencioso e pronto a ajudar, ele "ouviu" minhas queixas e me disse que esses sintomas eram de "aura de enxaqueca".....

Aura de enxaqueca, eu nunca tinha ouvido falar nisso...

Olha só, depois de quase 20 anos sofrendo com isso... em algumas mensagens com a pessoa certa descobri que o que tinha eram crises de enxaqueca... e que isso é muito mais normal do que eu poderia imaginar...

Depois dessa conversa, pesquisei na internet por uma tarde toda e descobri inúmeros depoimentos de muitas e muitas pessoas que sentiam tudo como eu... amortecimento nas mãos e antebraço; visão periférica super prejudicada (como se tudo ficasse pela metade); fala muito estranha (você sabe o que quer falar mas as palavras não saem da sua boca como deveriam); enjoo; mal-estar... e muita dor de cabeça...

Engraçado, saber que outras pessoas compartilham das mesmas dores que você, deixa o problema tão mais leve... pelo menos pra mim foi assim..

Como de costume, vinte dias depois da cirurgia tínhamos uma viagem marcada... e podem não acreditar, mas era pura coincidência... Acho que tudo na minha vida sempre foi planejado em outro plano... :)

Como eu estava muito mal com as tais crises, até então conhecidas como  nervosas, já havia pedido pra minha amiga, agente de viagem, dar um jeitinho de cancelar, de adiar, de qualquer coisa... eu só não estava afim de viajar me sentindo frágil daquela maneira...

Pior que ela não conseguiu cancelar... Pior??? Não, melhor... melhor que ela não tenha conseguido cancelar... pois depois do esclarecimento do meu oftalmo, o meu medo diminuiu, ou a minha coragem aumentou, o importante que mais uma vez eu queria viver, viver, vive sem perder tempo...

Sendo assim, a viagem não foi cancelada...

Minha mãe, minha tia e eu partimos para João Pessoa... partimos para conhecer a Paraíba... partimos para rever amigos feitos em Fernando de Noronha... partimos para arejar, para recarregar as baterias, para respirar outro ar e reconhecer que a vida é toda linda...  

Saímos de Mangueirinha à meia noite com uma chuva tremenda o que fez atrasar a viagem... isso me preocupou muito porque sabia que nosso tempo era muito curto entre a rodoviária e o aeroporto... Então desembarcamos antes de chegar ao ponto final em Curitiba e pegamos um táxi com objetivo de não perder nosso voo...

Quando falei ao taxista qual o horário do nosso voo, ele disse: Meninas, se segurem!!! Hahahaha

Nessa hora vi que escolhemos o cara certo para tal tarefa... fizemos uma corrida com emoção, como diriam os bugueiros no nordeste... hahahaha

Voamos para o aeroporto, e quando chegamos a correria continuou...

Nosso check-in já estaria pronto na agência... quando cheguei na agência e entrei correndo , uma mocinha muito simpática me disse: Luciana??? Acho que perderam o seu voo... e eu disse: “não, não pode ser”...

E então começamos outra corrida.... A mocinha da agência... eu e minha mala... minha mãe e sua mala... minha tia e sua mala barulhenta pra caramba...  uma atrás da outra pelos corredores e escadas rolantes do Afonso Pena... hilário... hahaha

Chegamos e de fato o despacho das bagagens já havia sido fechado, as correntinhas já estavam trancando nossa passagem, mas a mocinha conseguiu nos colocar no voo...

Afffffff.... naquela hora nem lembrei que estava num pós operatório... nem lembrei que sofria de crises enxaquecosas... na verdade só lembrei que precisava embarcar, imagina que não lembrei nem de comer... hahaha

Voos super tranquilos e em pouco tempo estávamos desembarcando em João Pessoa... que maravilha conseguir superar os obstáculos e chegar ao destino...

Hotel beira mar... muito bem situado... e ainda ganhamos um upgrade, nem sei direito o porquê, mas ganhamos um apartamento muito melhor do que pagamos... além de um atendimento perfeito... adorei...

Já havia conhecido muitos lugares lindos... mas a Paraíba mexeu comigo... João Pessoa é maravilhosa... Um sol incrível... um mar exuberante... e pessoas acolhedoras por todos os lados...

Já no primeiro dia fomos conhecer os arredores, as praias mais lindas do Estado...

Vi centenas de pessoas, e centenas de pessoas me viram...

Eu estava muito feliz... as pessoas me olhavam, me cumprimentavam e ninguém estava ligando pro meu hemangioma... até que... alguém surgiu pra me lembrar que nem tudo são flores...

Estávamos sentadas num quiosque, minha mãe, minha tia, uma amiga de SP que conhecemos no ônibus e eu,  quando uma mulher veio olhando e rindo pra mim, eu achei mesmo que ela estava rindo pra mim, mas ela estava rindo de mim... Ela imaginou que eu era tão idiota quanto ela, e que tinha feito uma espécie de make ou uma máscara, horrível como ela frisou, para parecer que tinha um problema e zoar com alguém... E quando chegou bem perto, e viu que eu era assim, completou dizendo que de fato ninguém colocaria algo assim tão feio no rosto por querer...

Não lembro, exatamente, as palavras que ela usou... e também não quero lembrar, porque tenho certeza que são bem piores que as que eu usei aqui...

Ai, ai, ai... dai-me paciência... Sorte que Deus me fez muito paciente, porque naquela hora eu queria dar na cara dela... Falo com toda a certeza que essa foi a primeira vez na vida que senti vontade de bater em alguém e sinto vergonha por isso, mas não tinha como sentir diferente naquela hora...

Eu não entendo como a ignorância humana pode chegar a um ponto desses... ridícula, insensível...qualquer outro adjetivo seria elogio diante da estupidez dessa mulher comigo...

Gente, eu fiquei paralisada, eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo... parecia uma brincadeira de mau gosto... mas não era... ela só estava sendo verdadeira, por mais incrível que isso possa parecer...

Acho que ela sentiu pena de mim ao final da história, e eu achei que quem seria digna de pena era ela... Sorte que sou péssima com fisionomias, então se eu retornar a vê-la , vou cumprimentar como faço sempre,  com um largo sorriso no rosto... hahaha 

Agora, se ela achou que tiraria o brilho da minha viagem, estava muito enganada... isso só me fez querer viver ainda mais e aproveitar cada instante com os 99,9% das pessoas que estavam lá...

Passeios, mar, sol de leve (pois era essa minha promessa ao Dr. Márcio), cinema, comidas deliciosas, taxistas inteligentes, gentis e galanteadores... hahaha ... e o mais importante... marcamos o encontro com os nossos amigos lá de Fernando de Noronha...

Marcamos em uma noite, que na outra iríamos à missa e jantaríamos juntos...

Dormimos muito bem e no outro dia cedo amanhecemos na praia, andando descalças na areia... tomando banho... tomando solzinho... até que comecei sentir alguns sintomas de aura de enxaqueca... que bom que agora eu sabia o que eram aqueles sintomas... que bom que agora eu sabia que isso dá e passa...

Precisei passar o dia no quarto, cancelamos então o city tour que faríamos naquela tarde... Fiquei deitadinha, quase sem comer, porque nessa situação não desce nada... fiquei sob os cuidados da minha mãe e da minha tia que fizeram tudo pra eu melhorar, rapidamente...

Viva ao Eduardo que fez o diagnóstico certo na hora certa... se não fosse assim aquela crise iria me derrubar e eu iria querer voltar pra casa correndo... mas sabendo o que eu tinha, quando o principal da crise passou, seguimos o planejado...

Fomos à missa e jantar com nossos amigos... que família maravilhosa, a família Vale e Beserra... jamais vou esquecer da acolhida, do carinho, da simpatia...

Eu não estava 100%, mas assim mesmo aproveitei muito o tempo com eles...

No outro dia a Talita, uma das nossas amigas, nos levou para fazer o city tour... mas um city tour especial... Ela nos levou, pessoalmente, conhecer os pontos principais da cidade... que tarde maravilhosa... só podia dizer que queria bis, bis, bis...

Tudo que é bom dura pouco...

Sabia muito bem que sentiria saudade de tudo... do aconchego dao nordeste... dos recepcionistas mais amados que eu já conheci... da cozinheira mais meiga que eu já vi... das arrumadeiras mais atenciosas que podem existir... do carangueijo e da caipirinha que não bebi... do sol... do mar... da brisa... daquela energia surpreendente e dos nossos amigos...

Fim de férias... retorno ao lar...

E como foi bom chegar em casa e rever meu pai, família, amigos...

Bateria nova, agora eu me sentia pronta pra retomar a vida...

Em cada procedimento sinto como se precisasse aprender tudo que eu já sabia...  Como caranguejo, andando para trás.. Emocionalmente, é assim que eu me sentia naquele momento...

É difícil explicar em palavras... mas toda a alegria, energia, coragem, força que eu agregava ao longo do tempo em cada bom momento,me parece que eram uma espécie de “poupança” para gastar nas próximas cirurgias... e que depois das cirurgias eu saía zerada de novo, e precisava recomeçar o trabalho, para conseguir um saldo positivo para a próxima... É estranho, mas é assim... haha

Meu físico estava ótimo, mas o meu psicológico precisava se refazer...

São muitos medos... muitas dores emocionais... muitos traumas e tudo isso dá uma travadinha...

Mas travada ou não... a vida continua... e que bom que ela não para e por isso nunca pude me dar o direito de parar também...

E assim recomecei o meu trabalho de formiguinha, guardando frutos do tempo bom para gastar nos dias difíceis... :)